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sexta-feira, 8 de setembro de 2023

Tire a máscara, quero aprender a falar.

Tire a máscara, quero aprender a falar.



José Henrique Nogueira. Mestre em Educação Musical/Musicoterapeuta  Pós-graduado em Construtivismo e Educação           
Diretor do Espaço 23 (Música & Educação)


As indicações de tratamento com musicoterapia cresceram muito nesses últimos anos, após a pandemia. Na minha clínica, no bairro das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, o Espaço 23, além das tradicionais indicações para Síndrome de Down, Alzheimer, autismo e  outras condições, percebi uma maior procura de pessoas interessadas em conhecer outro tipo de terapia, ou mesmo vivenciar as possibilidades terapêuticas da musicoterapia.

Houve também uma procura acentuada de pais interessados em musicoterapia para seus filhos, em sua maioria crianças de 3 e 4 anos de idade, diagnosticadas dentro do espectro autista. Todas apresentavam dificuldades na linguagem,  além de níveis relativos de hiperatividade e déficit de atenção.

Neste mesmo espaço de tempo, percebi que os veículos de comunicação e as mídias digitais passaram a divulgar um aumento significativo  de casos de crianças com os mesmos sintomas  relatados acima, atribuindo esse aumento aos dois anos de isolamento  vividos durante a pandemia do coronavírus.

Tais notícias e indicações chamaram minha atenção, e passei a refletir sobre os fatos. Fui elaborando ideias, passei a lembrar alguns autores que escreveram sobre o processo de desenvolvimento cognitivo de aquisição da fala e do canto do bebê; dentre os quais, Howard Gardner (1999), Daniel Stern (1992), Robert Jourdain (1998) e Jean Piaget (1971).

Passei a escrever para organizar as ideias que me  vinham sobre o desenvolvimento da fala dos bebês durante a pandemia. Um processo delicado, no qual ele entra em contato com a sua cultura. Aprende a falar ouvindo as ondas sonoras das vozes e também olhando atentamente as expressões faciais dos pais, dos familiares e amigos. Um momento único e fundamental para o desenvolvimento de todos nós.

Em meu artigo “Voz falada e voz cantada: o canto na educação infantil”, publicado no livro A práxis na formação de educadores infantis (Souza & Borges, 2002), faço uma breve reflexão sobre o início da fala dos bebês e, à luz dos autores citados anteriormente, traço uma analogia entre voz falada e voz cantada. Certamente, tal lembrança me ajudou a reviver e a procurar alguns livros que estavam ligeiramente escondidos nesse vai e vem da vida.

No começo do processo de aquisição da fala, a expressão vocal sonora inicial do bebê, o balbucio, está, de certa forma, mais relacionada ao canto do que à fala propriamente dita. Robert Jourdain (1998: 93) relata assim: “aos poucos, surge algo bem diferente da linguagem, algo que o bebê, provavelmente, expressará através de sílabas aleatórias, em vez de palavras. É a canção.”

A criança aprende a falar, assim como adquire outras habilidades,  imitando o que ela ouve, observa, percebe, sente. A imitação é um processo básico nesta fase do seu desenvolvimento. Ela, com menos de dois anos, começa a desenvolver a fala, assim como outros domínios, observando e imitando as pessoas próximas.

A criança e seu cérebro em desenvolvimento captam as informações cinestésicas, sonoras e visuais que estão ao seu redor e se estrutura para enfrentar o mundo que está por vir e que nós conhecemos muito bem. Assim, inicia-se o processo de aquisição da linguagem, observando e repetindo aquilo que ouve e também aquilo que vê.

Para aprender a falar, o bebê capta os sons que vêm em sua direção, suas orelhas são radares, e ele já as direciona para a onda sonora que vem ao seu encontro. Simultaneamente, ele fixa seu olhar nos lábios, nos dentes, nas bochechas, nos movimentos da face daqueles que se aproximam dele.

  Quando falamos com os bebês, utilizamos aquelas palavras e fonemas carinhosos, pronunciados, quase por instinto, num timbre mais agudo. É como se já estivéssemos pré-programados a fornecer às gerações que chegam um teatro facial sonoro necessário para que possam aprender a falar.

O psiquiatra Daniel Stern (1992), autor do famoso livro O mundo interpessoal do bebê, descreve assim esse mecanismo de aprendizagem da fala: 

a própria fala, em uma situação natural, é uma configuração visual, assim   como acústica, porque os lábios se movem. A capacidade de imitação aumenta consideravelmente quando os lábios podem ser vistos. Por volta de seis semanas, os bebês tendem a olhar mais estreitamente para os rostos que falam. Além disso, quando o som real produzido está em conflito com os movimentos dos lábios observados, a informação visual predomina em relação à auditiva. Em outras palavras, nós ouvimos aquilo que vemos, não aquilo que é dito. (Stern, 1992, p.44)

 

Como foi o desenvolvimento dos bebês durante a pandemia? Essa foi minha primeira questão. Justamente no momento em que todo seu sistema nervoso se preparava para receber os estímulos do mundo, a vida parou, congelou, como se o projetor de imagem do cinema tivesse se quebrado. Mesmo nas poucas famílias que conseguiram se retirar para lugares mais distantes, sítios ou casas de praia, os bebês, ainda assim, perderam a oportunidade de entrar em contato com a diversidade de um mundo rico em sons, cenas, gestos, gente de todo tipo.

Minha segunda questão foi mais específica: como se deu o processo de aquisição da fala desses bebês que viveram no isolamento da pandemia, ouvindo sons vindos de faces cobertas de máscaras? Certamente, a qualidade sonora da voz ficou bem comprometida, abafada, sem brilho e impessoal. A articulação da boca e de toda a face, parte importante no processo de aprendizagem, por sua vez, ficou oculta, velada e impedida.

Todos ao redor, pais, irmãos estavam de máscara, inclusive os próprios bebês. E, depois, já no final da pandemia, quando passaram a frequentar as creches, lá também os profissionais usavam máscaras. Não foi uma tarefa fácil para os bebês que nasceram e/ou se desenvolveram durante esse período.

Este artigo não é uma constatação científica, nem mesmo parte de qualquer reflexão mais detalhada, fundada em alguma pesquisa de campo ou algo assim. Trata-se de uma observação, uma “inspiração” sobre fatos que me interessam e estão intimamente ligados ao meu trabalho e à minha vida.

Creio que, durante a pandemia, o processo de aquisição da fala, tão importante para a estruturação do indivíduo ao entrar no mundo, sofreu uma alteração daquilo que era naturalmente previsto. As máscaras modificaram, abafaram e tiraram o brilho, o calor e a sinceridade da pulsão da voz. O som, por sua vez, tinha origem numa face coberta, obstruída, impossibilitada, na qual não era possível perceber as expressões faciais. Acredito que tais fatores possam ter trazido certa dificuldade para o desenvolvimento de algumas crianças.

Há muitos anos venho atendendo, com musicoterapia, a todas as faixas etárias. Em meu atelier, convivo com vários tipos de síndromes e dificuldades. As crianças, que me inspiram, entram felizes quando abro a porta. Algumas já entram pulando, querendo brincar, cantar e experimentar. Ocupam o espaço com olhinhos brilhando, cheios de “vontade de mundo”.

Quase sempre, agacho-me para recebê-las, tento, assim, olhá-las sempre nos olhos. A ideia é ficarmos sintonizados pelo olhar, pelo som que vem em nossa direção e, se possível, hipnotizados pelos movimentos de nossos rostos.


Referências bibliográficas:

GARDNER, Howard. Arte, mente e cérebro. Porto Alegre: Artes Médicas, 1999.

JOURDAIN, Robert. Música, cérebro e êxtase. Rio de Janeiro: Objetiva, 1998.

PIAGET, Jean. A formação do símbolo na criança. Rio de Janeiro: Zahar, 1971.

SOUZA, Regina Celia e BORGES, Maria Fernanda. (orgs.) A práxis na formação de educadores infantis. Rio de Janeiro: DP & A, 2002.


STERN, Daniel. O mundo interpessoal do bebê. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992.

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 1 SOUZA, Regina Celia e BORGES, Maria Fernanda. (orgs.) A práxis na formação de educadores infantis. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.             

2  JOURDAIN, Robert. Música, cérebro e êxtase. Rio de Janeiro: Objetiva, 1998. p. 93.         

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Autismo e Música Clássica





Relato da prática

Entre tantas atividades terapêuticas e musicais trabalhadas no Espaço 23, tais como a improvisação e criação musical, a prática do canto e de instrumentos, utilizo também a escuta musical e especialmente a da música clássica. O breve relato deste texto, apresentará um resultado de um dos autistas que venho trabalhando e que me surpreendeu. Miguel, 10 anos de idade, está comigo há 4 anos, é um autista não verbal hiperativo, com muita dificuldade de concentração numa atividade. Há dois anos passou a ser meu enteado, o que ampliou a minha proximidade e consequentemente a minha capacidade de observação.  Depois de algumas tentativas  para usar o head-phone, fundamental nesta atividade, ele conseguiu aceitar o acessório e passou cerca de 20 minutos escutando "Música noturna", de Mozart. Aproveitei o momento positivo e promissor e num outro encontro optei por pura intuição a audição da música “Quatro Estações", de Vivaldi, e para minha surpresa ficou por 45 minutos completamente envolvido pela composição.


Foram 45 minutos escutando música, quieto, parado, sozinho, e podia-se perceber sua alegria e interação através de sua expressão. Importante ressaltar que não haviam imagens passando no monitor do laptop.  Televisão, tablet, revistas, ou até mesmo a janela do carro em movimento que são, na maioria das vezes, o que o faz ficar quieto por tanto tempo. E assim ficou sentado, sendo seu sistema auditivo acariciado pelos timbres (sonoridade de cada instrumento), pelas melodias, os ritmos, as surpresas das intensidades (forte e fraco), enfim um complexo de beleza musical iluminando, circulando  em sinapses pelo seu cérebro. Uma experiência positiva que abre espaço para continuarmos investindo nessa direção. 


Pesquisas em Musicoterapia


A musicoterapia é uma técnica terapêutica que usa a música em todas as suas formas com participação ativa ou receptiva. Esta atividade, que é receptiva, há muitos anos vem sendo pesquisada na neurologia, na psicologia entre outras áreas do conhecimento. A ideia básica nestas pesquisas é reconhecer que algumas doenças perpassam e até mesmo se originam no cérebro, que então transmite a uma parte do corpo um estímulo específico que reproduz um distúrbio, uma doença.

A terapia através da escuta musical tenta obter estímulos contrários, que se oponham àqueles que são relacionados à doença. A ideia é tentar criar um anteparo no sistema nervoso, um certo bloqueio para àqueles que possam estar estimulando ou produzindo a alteração . 

A partir de várias melodias de compositores clássicos, os pesquisadores fizeram com que vários pacientes, com dificuldades diversas, tais como: ansiedade, hipertensão, insônia, etc ficassem escutando por um determinado tempo várias obras  musicais, de Mozart, Bach, Beethoven entre outros, e alcançaram efeitos surpreendentes.  Criaram assim algumas listas de obras clássicas que visam auxiliar em diversas doenças. (A lista estará no final do texto)







 Sugestões para se iniciar uma escuta musical


A) Conseguir um head-fone que cubra  a orelha.

B) Sentar inicialmente com a criança no colo conter seus impulsos para se mexer e sair.

C) Geralmente as músicas clássicas são grandes. Pode-se pensar em fazer um planejamento de escuta gradativa. 

D) A escuta, sempre de headphone, pode ser auxiliada entretendo o paciente com algum objeto na mão. 

E) Caso escute pelo YouTube sugiro que se utilize músicas que tenham imagens fixas para não tirar o foco na audição, valorizar a força do alcance das ondas sonoras ao córtex auditivo e a partir daí se espalhar para outras direções do cérebro.



Resultado da Pesquisa da Escola de medicina integral de Caracas


Insônia: 

Nocturnes de Chopin (op.9 No. 3) 

http://www.youtube.com/watch?v=gCPnUFmIJWM 

(Op.15 No. 2) 

http://www.youtube.com/watch?v=SbAEsaZ8_LM 

(ou página 9 # 2) 

http://www.youtube.com/watch?v=YGRO05WcNDk&feature=related 

Prelúdio para a cochila de Fauno por Debussy 

https://www.youtube.com/watch?v=9_7loz-HWUM 

Canon em Re de Pachelbel 

http://www.youtube.com/watch?v=hOA-2hl1Vbc&feature=related 


Hipertensão: 

As quatro estações de Vivaldi 

http://www.youtube.com/watch?v=yb8icchy4H4&feature=fvst  

Serenade nº13 em Sol Mayor por Mozart 

https://www.youtube.com/watch?v=z4Hfv00eqoI 

Música aquática de Haendel 

https://www.youtube.com/watch?v=cnn3TVBDtcA

Concerto para violino Beethoven 

http://www.youtube.com/watch?v=Qx9LOgSGGqk  

Symphony nº 8 de Dvorak 

http://www.youtube.com/watch?v=W5UbrhqdqQE 


Ansiedade: 

Concerto de Aranjuez de Rodrigo 

http://www.youtube.com/watch?v=RxwceLlaODM  

As quatro estações do Vivaldit http://www.youtube.com/watch?v=f_pjH2b808w&feature=related  

Sinfonia de Linz, k425 de Mozart 

http://www.youtube.com/watch?v=JcDFZSEGFno 


Dor de cabeça: 

O Sonho de Amor de Lisz 

http://www.youtube.com/watch?v=_pysf5ixCTQ 

Serenata de Schubert 

http://www.youtube.com/watch?v=ZpA0l2WB86E&feature=related  

Hymn to the Sun by Rimsky-Korsakov 

https://www.youtube.com/watch?v=klDF0jvCdb4


Dor de estômago: 

Música para Telemann's Table 

http://www.youtube.com/watch?v=8exrY_VSeZc 

Haendel's Harp Concert 

http://www.youtube.com/watch?v=iBnr6mJZJFg  

Concerto do oboe de Vivaldi 

http://www.youtube.com/watch?v=jEQ0N9D1NQs 


Energia: 

O Sibelius Karalia Suite 

https://www.youtube.com/watch?v=adKwG9ZuzFw

Serenade of Strings (op.48) por Tschaikowsky https://www.youtube.com/watch?v=DPBKukl0oc4 

Abertura por Guillermo Tell de Rossini http://www.youtube.com/watch?v=6y7tjxii2y4http://www.youtube.com/watch?v=tIxIknEONkU 


Para a cura e harmonia de sua casa: 

Tudo sobre Wolfang Amadeus Mozart 

http://www.youtube.com/watch?v=df-eLzao63I



José Henrique Nogueira 

Musicoterapeuta 

Mestre em Educação Musical