sábado, 7 de maio de 2022

Casamento Branca e Zé




L
Quem quiser participar para a nossa Lua de Mel no Chile, segue abaixo as formas!! Valeu!!

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domingo, 13 de fevereiro de 2022

A paisagem sonora : Cosme Velho à Laranjeiras registrado numa bicicleta

 

 Paisagem Sonora

 Cosme Velho à Laranjeiras registrado numa bicicleta

(Artigo da Publicação "Escola em Transe" - UFF)

4ª PUBLICAÇÃO - 2021/2 | publicacaoemtrase (escolaemtranse2020.wixsite.com)

O link para assistir o vídeo da pedalada: https://youtu.be/PVnNMFWgv1s





                                                                                      

Eram 8:30 de uma manhã de segunda-feira de carnaval no ano de 2021. Um pequeno trajeto de 1,5 Km, um recorte no tempo e espaço no bairro das Laranjeiras no Rio de Janeiro percorrido numa bicicleta, começando na Rua Smith de Vasconcelos e terminando na Rua Sebastião de Lacerda, registrando numa câmera de celular acoplada ao guidom informações visuais e sonoras para a reflexão que pretendo encaminhar a seguir. O objetivo é de ampliar a discussão sobre conceitos como Paisagem Sonora e Ecologia Sonora e observar como a arquitetura e a estrutura urbana revelada neste breve espaço geográfico, podem trazer informações que inspirem reflexões urbanísticas, ecológicas, musicais e poéticas. A forma mecânica, repetitiva na qual percorremos nossos trajetos nos centros urbanos, nos impede de refletir sobre ele. Enfim, um curto trajeto, um recorte no cotidiano de um espaço urbano multifacetado cujo vídeo pode ser assistido no “link no final desse texto”.     
                                                                                              
                            Árvores: anteparos sonoros

Assistindo o vídeo podemos perceber muitos detalhes, certamente muitos outros surgirão sob o olhar e a audição de cada um que o assistir. Por sua vez vou me deter inicialmente na quantidade de árvores que ainda habitam no percurso registrado por mim. São inúmeras árvores de tamanhos diferentes, de tonalidades de verdes igualmente distintas e de espécies diferentes. Amendoeiras, palmeiras, pau-brasil, oitizeiro entre muitas outras que convivem com a paisagem do bairro das Laranjeiras.  As árvores além de refrescar e embelezar a cidade, servem como abafadores do ruído urbano. Suas copas, seus troncos, servem de anteparos ao constante fluxo ruidoso produzido pelo trânsito intenso das ruas. O vento em suas folhas produz sons de timbres diversos que amenizam e trazem bem estar, nos remetendo, sem que percebamos, a um contato sonoro mais primitivo. O som das árvores e todos os outros sons que ela abriga também se perdem quando ela é cortada. Certamente essas árvores que produzem sons com seus galhos e folhas, também trazem pássaros, cigarras, micos, que por sua vez igualmente participam sonoramente da paisagem sonora desse percurso. Como um rio ruidoso, caudaloso de forte correnteza, não encontrando resistência o ruido da cidade segue seu curso invisível e por incrível que pareça, sem ser percebido pela audição. O olhar e seu imperioso sentido da visão ainda rege as normas da ecologia.

 

“No passado havia santuários emudecidos onde qualquer pessoa que sofresse de fadiga sonora poderia refugiar-se para recompor sua psique. Poderia ser nas florestas, à beira-mar ou numa encosta coberta de neve durante o inverno.”(Schafer,R. Murray, 1977)

 

A arquitetura do percurso

Neste percurso registrado pelo vídeo, é importante relatar sobre as construções que estão visíveis no enquadramento da câmera do celular. É possível observar a diversidade de estilos e épocas nos traços dos prédios, fachadas, muros e outras estruturas que revelam uma das características deste bairro das laranjeiras, o de abrigar uma paisagem arquitetônica multifacetada. Assim que a câmera começa a registrar a Rua Cosme Velho; aos 0:27 min surge a Casa da Embaixada da Romênia, em seguida descendo a esquerda a Igreja São Judas Tadeu, um pouco mais a diante, uma construção verde o Colégio São Vicente de Paulo, aos 1:07 min podemos observar o magnífico Colégio Sion, ainda a esquerda aos 1:28 o famoso complexo predial Pires de Almeida, seguindo um pouco mais o muro amarelo do recuado e maravilhoso Edifício Monte, logo em seguida e ainda a direita a Igreja Cristo Redentor, aos 2:39 min é possível avistar o chafariz em forma de concha da Praça Ben Gurion e por fim ao entrar na Rua Sebastião de Lacerda aos 3:25 min é possível observar as 4 casas gêmeas à direita do vídeo. Muitas outras construções importantes não foram registradas pela câmera, mas que fazem do Bairro das Laranjeiras um espaço fértil para quem gosta de apreciar e estudar arquitetura.

 

Paisagem Urbana

Dizem que antes da inauguração do Túnel Rebouças no dia 3 de outubro de 1967 essa região era bem mais tranquila e com um perfil urbano coerente com as características de um bairro residencial com muitas casas, situado em um vale cercado de montanhas com pouca circulação de carros e com vendedores gritando seus pregões pelas ruas. Ainda é possível perceber no asfalto os trilhos dos bondes que circulavam por ali, assim como vendedores de vassouras, de pão em suas bicicletas, e com muita sorte, vendedores com seus cachos de caranguejos equilibrados, o amolador de facas faz tempo que não o ouço. Mas durante o trajeto algumas coisas chamam a atenção. As ruas alternam de largura, assim como as calçadas, enquanto as placas de aviso e comunicação para os motoristas que parecem possuir um design ultrapassado se escondem da visão entre fios e árvores. A ciclofaixa embora demarcada no asfalto ainda gera certa insegurança. Transeuntes passando, chegando, atravessando as ruas e calçadas numa manhã de segunda-feira. Ambulantes, ônibus, carros, caminhões, bicicletas perpassando pelo trajeto anunciando o começo da semana. As ciclovias embora deterioradas e eventualmente invadidas funcionam bem. O perfil urbanístico do trajeto apresenta uma diversidade que abriga o crescimento natural e o planejado. É possível observar resquícios das estruturas do passado e do presente tentando conviver. A impressão que dá é que o fluxo de urbanização que o túnel ofereceu não coube na estrutura tradicional do bairro que ainda resiste. Um bom projeto acústico para a cidade certamente é aquele que saberia manter e até resgatar os sons naturais e originários de um espaço urbano e consiga mixá-los aos sons e ruídos da contemporaneidade.

 

“O projetista acústico incita a sociedade a ouvir novamente modelos de paisagens sonoras lindamente modulados e equilibrados, tal como ocorre, hoje, nas grandes composições musicais. O esforço final é aprender como os sons podem ser reorganizados, de maneira que todos os tipos possíveis possam ser - uma arte chamada orquestração.”(Schafer, R. Murray, 1991)

 

 

 

Paisagem Sonora

A paisagem sonora para melhor ser observada e percebida se faz fechando os olhos para apreciação do vídeo que gerou inspiração para esse texto. Diversos tipos de sons podem ser ouvidos durante o trajeto. Dois deles sempre estarão presentes ora mais, ora menos durante todo o percurso. Um deles os ruídos da minha bike: o som da roda girando, da estrutura do pedal, corrente e coroas, os freios. O outro também sempre presente o fluxo ruidoso e constante da cidade, que é constituído de inúmeros sons tais como: ar refrigerados, ônibus, carros, motos, gritos, falas, buzinas, rádios ligados, entre muitos outros sons urbanos.

Este trajeto foi feito por uma bicicleta cortando e enfrentando o atrito do elemento ar que é composto diversos tipos de gazes, que por sua vez propagam o som. Ondas sonoras invisíveis aos nossos olhos estão se propagando em diversas amplitudes, entrecortando-se em diversas direções. Imagine várias pedras de diversos tamanhos sendo atiradas ao acaso e simultaneamente num lago sereno ou num remanso de um rio produzindo lindos desenhos circulares de diâmetro e de duração diferente na superfície. No ar, está sempre acontecendo a mesma coisa através de pulsos energéticos oriundos de alguma perturbação física que gere esta oscilação e não faltam fontes sonoras numa cidade. Acho, mesmo para os mais especialistas e acadêmicos que estudam e se interessam pelo o fenômeno sonoro, vale sempre “lembrar que um copo vazio está cheio de ar” (Gilberto Gil).

A inspiração poética e musical está ligada com o ambiente sonoro que cerca os compositores. Vários compositores de um passado mais silencioso se inspiraram em temas e motivos da natureza em suas obras. O bairro das laranjeiras abriga uma forte tradição de artistas, poetas, filósofos e compositores. O cuidado com os projetos acústicos urbanos também beneficia a manutenção de um pensamento criativo e crítico do bairro.

Imaginemos agora que o percurso fosse um rio. Um rio sonoro que começou a ser registrado por um dos seus afluentes; calmo, tranquilo, com pouca massa sonora, repleta de sons naturais e de prenúncios de silêncio. Este afluente, no caso a rua Smith de Vasconcelos, que desce lentamente com seus sons de maritacas, com seus poucos ruídos matinais e pitadas de silêncio. Aos poucos este afluente sonoro vai se encontrando com um grande fluxo sonoro ruidoso que desce morro abaixo. No chão, um asfalto ideal para propagar o veio ruidoso, que, se fosse poroso, menos compactado, talvez reduzisse a propagação contínua desse rio sonoro cuja sua intensidade está apenas começando como pode ser escutado no vídeo.

A rua Cosme Velho possui em suas encostas uma arquitetura com casas e prédios recuados que permitem que as ondas sonoras se espalhem diminuindo a força do fluxo ruidoso, mas que, por sua vez continua implacavelmente crescendo conforme nos aproximamos da altura rua General Glicério.

Já na Rua das Laranjeiras podemos observar que os prédios começam a ficar mais altos e colados uns aos outros. A essa altura os ruídos seguem seu fluxo com mais intensidade. Literalmente canalizados pela estrutura de cimento compactada dos prédios construídos colados uns aos outros, todos a próximos a via principal, a massa sonora repleta de ruídos parece seguir em forte velocidade e intensidade. Imperiosa, essa corrente sonora, atrai para si como uma força eletromagnética todos os ruídos que estão próximos e os transforma numa massa caudalosa sem anteparos que possam reduzir sua força.

O percurso deste rio sonoro, por ironia do destino segue o mesmo curso do rio Carioca que está abaixo do asfalto. O asfalto impermeável separa os dois. Por baixo um rio importante para a história Rio de Janeiro, seu nome batiza aos que aqui nascem e vivem, segue escondido, enterrado numa cripta asfáltica. E por cima uma corrente sonora ruidosa, turbulenta, invisível que nos atravessa sem nos darmos conta, que talvez nos influencie à esquecer quem somos e para onde vamos,  um ruído constante e hipnótico

É interessante perceber que ao entrar no afluente sonoro à direita na rua Sebastião de Lacerda, final deste percurso, o som imediatamente perde sua intensidade. Observa-se logo o esplendor arquitetônico das quatro casas gêmeas na beira da rua, praticamente sem muros, parecendo ser as guardiãs de uma romântica e bucólica paisagem sonora de outrora. O áudio do vídeo, revela claramente a saída do fluxo da torrente sonora da rua das Laranjeiras entrando como em um remanso, é algo instantâneo, volta-se a escutar o som da bike e de outros eventos esparsos, percebe-se a presença de algo como uma massa silenciosa. Um bolsão de ar mais silencioso, um remanso sonoro, à espreita, não conseguindo penetrar e no grande rio de massa sonora contínua seguindo seu curso imperioso em direção ao Largo do Machado.

“O progresso das civilizações criará mais ruido e não menos, disso estamos certos.Daqui a um século, quando o homem quiser fugir para um local silencioso, pode ser que não tenha sobrado nenhum lugar para onde ir.”(Schafer,R. Murray, 1977)

 

1 Educador Musical, Musicoterapeuta e Compositor. Mestrado em Educação Musical (CBM), Graduado em Musicoterapia (CBM), Pós-graduado (s.l) em Construtivismo e Educação (FLACSO). Extensão “Hands on music” Orff Socity (UK) – Atualmente dirige e coordena as atividades do Espaço Musical 23 no Rio de Janeiro. 

Link do vídeo: (https://youtu.be/PVnNMFWgv1s)   https://youtu.be/PVnNMFWgv1s

Link para ler todas as publicações: https://escolaemtranse2020.wixsite.com/meusite/c%C3%B3pia-escola-em-transe-3%C2%AA-publica%C3%A7%C3%A3o 

Bibliografia

Schafer, R. Murray. O ouvido pensante. São Paulo: Editora Universidade Estadual Paulista,1991. 

Schafer, R. Murray. São Paulo: Editora UNESP, 2001

Krause, Bernie. A grande orquestra da natureza. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

sábado, 29 de maio de 2021

Lançamento URBANO - José Henrique Nogueira



 Lançamento do EP "Urbano", quinto trabalho de estúdio do compositor e educador musical José Henrique Nogueira, evoca valores que sustentam a vida moderna nas cidades: música, encontros e perspectivas

Por Octavio Perelló

Os elementos urbanos atestam o título e apontam o processo de criação marcado pelas pausas e acelerações da vida no Rio de Janeiro, onde a natureza circunda a expansão do concreto e oferece belezas e riquezas sonoras. Entregam ainda a trajetória do músico, compositor, musicoterapeuta, escritor e educador musical José Henrique Nogueira nos palcos, bares da vida, estúdios e salas de aula, reunindo experiências artísticas, acadêmicas e de vida que sintetizam a arte de reunir, entreter, encantar e cuidar de pessoas.

O EP "Urbano" é o quinto trabalho de estúdio de José Henrique Nogueira, após o lançamento dos CDs "Caiçara", "Curiosa Idade Musical I e II", e do compacto duplo "Mar" (vinil), este último lançado no início da carreira. Sua obra é permeada ainda de livros autorais sobre Educação Musical, coordenação acadêmica, pesquisa e ensino, além de criações musicais para teatro. José Henrique Nogueira é também idealizador e diretor do Espaço 23, que há doze anos oferece Música e Musicoterapia aos alunos, em Laranjeiras, no Rio de Janeiro.

O mais recente trabalho, "Urbano", chega ao público ainda em plena pandemia, marcando o encontro musical do compositor e violonista com os músicos Guto Goffi, José Staneck, Gastão Villeroy, Nilo Romero, Raimundo Luís, Lui Coimbra e Nana Simões. Os criativos arranjos do compositor, somados à competente execução dos músicos, com mixagem e masterização de Luizinho Mazzei, apresentam composições maduras para a audição dos mais requintados gostos musicais.

Os destaques, sem tirar nem pôr, vão para todas as faixas (Balada para Pat Metheny, Era um Blues, Canon Blues,Trilha dos Pássaros e Urbano), que têm características particulares em suas propostas e andamento, embora exibam o mesmo DNA. Mas vale destacar duas, em especial, que foram antecipadas ao público: "Canon Blues", que ao mesmo tempo que tem uma intrínseca elaboração rítmica e melódica sobre o tema, tem ainda um apelo ao encontro, à diversão e à improvisação; e "Trilha dos Pássaros", que remete ao modo pessoal de tocar violão do autor e se desenvolve no intuito de criar imagens sonoras que possam trazer a leveza e a magia dos pássaros no ambiente urbano.

"Estou muito feliz com esse novo trabalho e com os encontros que ele me proporcionou. Foi tudo feito com amor e dedicação à música."

As cinco faixas do EP "Urbano" podem ser acessadas nas plataformas digitais Spotify, Apple Music e Deezer, além dos videoclipes que estão disponíveis no YouTube. (Assistir “Canon Blues” e “Trilha dos Pássaros” nos links abaixo)

https://youtu.be/1HfdTDP4xCs https://youtu.be/OUNEUqJi5ac

  

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Músicoterapia e música contemporânea

Musicoterapia e a Música Contemporânea




O que é música? Essa pergunta para ser bem respondida, se faz necessário um recorte histórico, pois a música foi se estruturando no decorrer do tempo, adquirindo formas diferentes, seguindo seu rumo, sua evolução, que não é qualitativa, pois cada estrutura musical tinha sua beleza correspondente com a estética e possibilidades de cada época. As estruturas desenvolveram-se com a evolução dos instrumentos musicais, que instigavam os compositores, que por sua vez criavam novasestruturas sonoras e assim sucessivamente desde a pré-história musical até as possibilidades musicais futuristas que ainda estão por vir.

Neste percurso, surgem no século XX inúmeros compositores que, insatisfeitos com a monotonia das estruturas musicais vigentes da época, começam a criar música fugindo da estética sonora e gráfica da época, isso porque paralelamente as propostas de uma nova música rompendo com o passado, surge uma nova grafia musical.  Dentro deste espectro chamado de Música Contemporânea, surgem inúmeras propostas de organizações sonoras ou musicais, tais como: música atonal, música experimental, concreta, eletrônica, aleatória, entre outras. Surgem compositores como: Stockhausen, Cage, SchoenbergMessiaen entre muitos outros.

E como a música contemporânea pode contribuir com a musicoterapia? Quando a música contemporânea trouxe novas possibilidades sonoras, um novo conceito para o que vem a ser música (mais amplo), uma nova escuta e novas possibilidades gráficas para a música, ampliou de certa forma as possibilidades musicais para as atividades de musicoterapia. A música contemporânea não é algo simples. Pelo contrário, as estruturas sonoras compostas para serem interpretadas apelos músicos são extremamente complexas e necessitam de horas de estudo e de prática. Porém, podemos oferecer aos pacientes de musicoterapia, alegrias musicais com as construções sonoras, composições terapêuticas ou pedagógicas com a sonoridade que música contemporânea trouxe para o cenário musical. Sigo sempre um princípio básico para fazer música com meus pacientes, que não se modificou com o decorrer dos tempos: música é uma estrutura sonora organizada, com início e fim bem determinados e com intenção musical.

A estética musical terapêutica ganha outra dimensão com o advento da música contemporânea, fica mais generosa, favorecendo aqueles que por motivos diversos, seja por dificuldade física ou psíquica, possam por meio dos sons possíveis de serem produzidos, organizarem estruturas que possam vir a ser chamadas de música. Essas atividades trazem para muitos uma sensação positiva, de bem estar, fazem com que consigamos juntos organizar as possibilidades sonoras que antes pareciam caóticas e sem organização. Essa, para mim, dentro do meu contexto musical terapêutico é a mais importante contribuição que a música contemporânea trouxe para a musicoterapia; a ampliação da estética musical.

Importante ressaltar que a música tradicional continua viva e sendo utilizada na prática da musicoterapia, suas estruturas continuam trazendo muito prazer para aqueles que conseguem ingressar neste universo. É terapêutico poder vir a tocar uma bela melodia num instrumento, um pandeiro, uma bateria. Inclusive a música tradicional pode vir a ser mesclada com a contemporânea e vice versa.

A musicoterapia, e consequentemente o musicoterapeuta, devem estar preparados e abertos para receber, utilizar e organizar todas as possibilidades sonoras: ruídos, grunhidos, estalidos, sussurros, balbucios, gritos, silêncio, enfim; é possível fazer música com os mais diversos tipos de sons na prática musicoterapeutica.

domingo, 13 de dezembro de 2020

Musicoterapia e Lateralidade

Trabalhando a lateralidade através das atividades musicais. 

Segundo Airton Negrini, a criança não deve ser estimulada a adotar uma lateralidade definida, é preciso observá-la, e, enquanto puder se divertir nessa “busca”, melhor para ela. Precisamos estar atentos, mas também é importante oferecer  um leque de possibilidades de atividades para que isso aconteça. A música possui muitas palhetas deste leque, que vão do controle motor fino, como tocar as cordas de um violão, ao controle motor grosso, que pode ser observado quando tambores são percutidos, como esse do vídeo anexo a este texto.
A música (sentido amplo da palavra) participa com maestria desta exploração da motricidade.
Porém, embora estejamos trabalhando a lateralidade, percutindo ora com uma mão e depois a outra, como ficou bem claro nesse vídeo; no final da sessão a expectativa é pela a alegria vivida com a música.  Não resta dúvidas que a felicidade que brota ao se tocar um instrumento é algo contagiante e geralmente os pais esperam por esta alegria . 
Porém, nós sabemos que muito mais está sendo trabalhado e estimulado neste breve vídeo. Até a fala e outros aspectos cognitivos necessitam de exercícios rítmicos com ambas as mãos para serem estimulados. 
Apesar deste e de outros  muitos ganhos possíveis nas atividades de Musicoterapia , a expectativa quase sempre é pela alegria que a música traz.
Cabe ao musicoterapeuta saber se organizar e se posicionar entre a expectativa  e às tantas outras possibilidades e contribuições que as atividades de musicoterapia oferece.
Observar e participar da felicidade dos pais é importante , mas alertá-los  quanto às contribuições para além “das alegrias da música” também é.
Infelizmente temos que conviver com aquela pergunta:
O que vem a ser musicoterapia?
Jose Henrique Nogueira 

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José Henrique Nogueira 
Mestre em Educação Musical
Musicoterapeuta 
Pós-graduado “Construtivismo e Educação” 

sábado, 12 de dezembro de 2020

Memória Musical. Você sabe assobiar?

MEMÓRIA MUSICAL

José Henrique Nogueira

Musicoterapeuta e mestre em educação musical pelo    Conservatório Brasileiro de Música (CBM-CEU).L

Você sabe assobiar?


Eu vivi uma época em que muitos assoviavam e cultivava-se o hábito de pesquisar diferentes possibilidades sonoras do assobio. Era comum, para mim, ouvir o silvo do assovio do meu pai, preenchendo com lindas melodias, o silêncio bucólico das tardes dos finais de semana. Ele assobiava em momentos de breves trabalhos domésticos: trocando uma lâmpada, serrando uma madeira, apertando um parafuso, enfim parece que o assovio criava um ambiente sonoro propício ao trabalho e ajudava passar o tempo. 

Também era comum escutar o seu assovio quando chegava a noite em casa do trabalho. Era uma breve e ritmada melodia (ostinato) específico com 2 ou 3 notas no máximo, como se fosse uma marca sonora que anunciava  a sua chegada.

Os meus tios, irmãos no meu pai, também cultivavam esse hábito. Assoviava-se na janela olhando os transeuntes passando pela rua, na mesa naquele momento de “tristeza” pós refeições, geralmente belas e breves melodias que tive a sorte de conviver, ouvir, agora lembrar e escrever, que é como se estivesse ouvindo novamente.

Quando menino eu e meus amigos assoviávamos com prazer, aparentemente por pura brincadeira. Mas hoje penso que  poderíamos estar demarcando nosso território sem saber. Na rua onde morei assoviávamos para chamar os amigos em suas casas, pela ruas e calçadas. Tínhamos os assobios comuns ao nosso grupo, acontecia sem nenhuma tipo de planejamento, quando víamos, ou melhor ouvíamos, o assobio, nossa marca, patente sonora já havia sido definida.

É importante lembrar que estou falando de uma região onde os prédios eram baixos, quatro andares quase sempre e alguns como eu, moravam em casas que não havia interfone para anunciar a chegada. Casas usavam campainhas, prédios tinham campainhas para chamar o porteiro ou zelador quando a portaria estava fechada e era comum todos olharem de suas janelas para verem quem tocava. A brincadeira sonora de tocar a campainha e sair correndo, devo confessar era uma saudável estripulia que nos proporciona muita alegria.

O assobio tinha uma função de chamado, de aproximação e de comunicação. Chamávamos também as meninas, assim como nossas namoradas que apareciam na janela com vigor, com o sorriso estampado e antecipado pois já sabiam quem iriam encontrar.

Embora tivéssemos o assovio comum do grupo, cada um também tinha seu tipo de assobio.  Era comum ficarmos procurando por timbres diferentes a partir de técnicas diversas; com os dedos das mãos, comprimindo os lábios e a língua, com a mão em forma de concha. Enfim, sem nos darmos conta, além da alegria do momento, marcava-se o nosso território, pois certamente o som era ouvido ao longe. Muitas das vezes, algumas delas no silêncio da noite, assobiávamos de casa, na janela, no portão e outros assobios em respostas eram ouvidos. Alguns deles podíamos reconhecer como sendo de nossos amigos, outros não, pois havia aqueles assobios que vinham com o som bem fraquinho pois estavam bem distante, de outras ruas, outros meninos, outros territórios sonoros.

Meus assobios são esses: o tradicional fazendo bico; com este consigo fazer melodias. Sei também utilizando quatro dedos, indicador e médio de cada mão. Eu consigo também assoviar utilizando dois dedos um de cada mão: só dois indicadores, dois médio, até os mindinhos. Com os dois polegares não consigo.

Com muito orgulho assobio com a mão em forma de concha. Com essa técnica consigo variar as alturas os sons, graves e agudos. Conseguia, na época, com a mão em forma de concha com os dedos cruzados, um som único, com pouca alteração na altura do som.

Cheguei a ver alguns assoviando com um dedo só, outros assoviando comprimindo os lábios, alguns com a língua pra fora enrolada. Certamente existem muitas outras técnicas de assobios.

Ao longo desses anos trabalhando em instituições de ensino pouco ouvi as crianças brincando de assoviar, fora alguns momentos das minhas aulas de música que estimulava esta prática sonora.

Fiz questão de ensinar as minhas duas filhas a assoviar ainda pequenas. Assoviam até hoje. Conseguem elaborar pequenas melodias e particularmente me sinto muito feliz e orgulhoso por terem adquirido esta habilidade.

Certamente o assobio ainda continua sendo um hábito cultivado. Alguns povos ainda se comunicam através dele, algumas pessoas principalmente os que vivem fora dos centros urbanos, conseguem imitar os pássaros com muita perfeição. Mas não resta dúvida que esta habilidade sonora vem perdendo seu prestígio. Com isso, o som do assobio, deixa de fazer parte do território sonoro que ocupava. Da mesma maneira que o som do amolador de facas, as vozes dos ambulantes com os seus “pregões”, assim como tantos outros que vem sendo silenciados. 

O primitivismo sonoro presente no assobio nos conecta aos nossos ancestrais, possivelmente os pássaros nos inspiraram, ou simplesmente o acaso de um sopro proporcionou uma sonoridade que instigou a curiosidade humana e fez surgir esta maravilhosa e pouco explorada habilidade sonora; o assobio. 

Você sabe assobiar?