domingo, 21 de outubro de 2018

Voz falada e Voz Cantada



(O canto na Educação Infantil)        
Artigo do Livro: “A Praxis na Formação de Educadores Infantis.”

Editora: DP&A
José Henrique Nogueira




Artigo do Livro: “A Praxis na Formação de Educadores Infantis.”
Editora: DP&A


É tão natural falar e cantar que não nos damos conta de algumas particularidades dessas duas formas de expressão. A partir de uma breve observação, será possível perceber que a fala ou a voz falada, seguindo a terminologia usada no texto, se posiciona numa região mais abaixo da face, de uma maneira bastante prática diríamos que está localizada na garganta. Já o canto ou a voz cantada, sobe um pouco mais, utiliza os ossos da face, da região nasal, na verdade faz vibrar toda a caixa craniana. Além destas diferentes localizações “geográficas”, há outras importantes peculiaridades de cada uma. Porém, se há diferenças, é possível que haja também alguma possibilidade de analogia entre elas. É sobre esse assunto, que este texto fará menção.

Se há uma permanente proximidade entre a voz falada e a cantada, se esta pode vir a contribuir no desenvolvimento inicial do canto ou vice-versa, se existe a possibilidade de precisar o momento em que elas se afastam para seguirem seus próprios caminhos, são assuntos bastante instigantes. Rousseau tinha a opinião de que as primeiras línguas foram “cantantes e apaixonadas”, ele ainda dizia que “dizer e cantar foram outrora a mesma coisa”. Poeticamente Rousseau ainda dizia que “os primeiros discursos foram as primeiras canções”, onde as constantes repetições e inflexões rítmicas das vocalizações “fizeram nascer a poesia e música com a língua. (Rousseau, apud. Claparéde, 1954) Não será objetivo deste texto trazer conclusões para estes temas, pois o estudo de tais analogias precisariam estar fundamentadas em muita pesquisa. No entanto, a partir da minha longa experiência na educação infantil, lecionando e observando crianças de zero a seis anos, percebi alguns pontos de afinidade entre o canto e a fala.

A aprendizagem da voz cantada possui uma relação com a voz falada, no que se refere ao processo inicial de aperfeiçoamento dessas duas habilidades. Um dos pontos em comum (talvez o mais evidente) que pode ser observado é o balbucio. O balbucio é uma expressão sonora considerada como primeira manifestação relacionada ao desenvolvimento do canto, alguns autores a classificam como uma “expressiva reação dos bebês aliada daquilo que consideramos cantar. Neste ponto de vista, podemos dizer que as crianças cantam antes de falar”. (Ellison, 1959) Há outros autores que o relacionaram com a fala e afirmam que é “um estágio do desenvolvimento da fala que não tem nenhuma relação com o pensamento...”. (Vigotski, p.37). Observamos duas opiniões distintas, cada uma dentro de suas respectivas áreas de conhecimento. Na verdade, esta etapa pré-verbal que independe da percepção auditiva, mas que com o desenvolvimento da criança irá adaptar-se à reprodução do som percebido, parece uma brincadeira, uma experimentação sonora, que muito bem pode pertencer ao processo inicial de desenvolvimento tanto da voz falada, quanto da cantada. Observamos, portanto, que temos no balbucio um elo entre o canto e a fala, uma experimentação melódica e fonológica, e que “de fato pode ser inapropriado isolar a linguagem precoce dos cantares musicais precoces - os dois estão indissoluvelmente ligados”. (Gardner P.135)

É a imprecisão que marca o canto na Educação Infantil, as crianças pequenas parecem atentas aos estímulos filtrando aquilo que logo poderão realizar. Escutam o canto de forma destorcida e ainda não entendem a função das canções. “Mas, entre doze e dezoito meses, exatamente quando o balbucio se transforma em palavras distintas, as crianças começam a alongar as vogais de maneira claramente musical. Aos poucos, surge algo bem diferente da linguagem, algo que o bebê, provavelmente, expressará através de sílabas aleatórias, em vez de palavras. É a canção.” (Jourdain,  p.93)

Percebo duas atividades próximas, porém diferentes uma da outra,  relacionadas às crianças e às canções. Uma é a apresentação de músicas fáceis que as crianças logo estarão cantando, como “Cai cai balão”, “Atirei o pau no gato”, etc., a outra é a apresentação de diversas músicas de nosso repertório (MPB, Sambas, Baladas, etc.), onde as crianças certamente estarão admirando o canto dos professores sem a intenção de cantá-las, no momento. É importante que fique bem claro que ensinar as crianças as cantar, é uma atividade completamente diferente de cantar músicas para elas. Pode-se ter certeza de que as crianças sabem muito bem diferenciar aquilo que logo estarão imitando daquilo que ainda não poderão imitar. Nas duas atividades é importante que o educador cante uma ampla variedade de músicas para as crianças, e perceba que a aprendizagem do canto é mais eficaz quando as canções são apresentada às crianças ao vivo, ou seja, cantadas pelo próprio professor.  

A imitação é um processo básico para o desenvolvimento da criança.. Ela  com menos de dois anos começa a desenvolver a fala, assim como outros domínios observando e imitando as pessoas próximas, os educadores não podem esquecer que fazem parte deste importante momento de aprendizagem do ser humano. As crianças estão ávidas por qualquer tipo de sonoridade vocal, por isso precisam e merecem ser bem servidas pelos educadores com diversos tipos de brincadeiras sonoras como: fonemas engraçados, vogais longas e curtas, parlendas, etc.. O educador infantil deve ficar à vontade diante dos possíveis e “impossíveis” fonemas de serem emitidos pela voz,  pois “é preciso que a criança se interesse pelos sons ouvidos; logo, o contágio nada tem de automático mas apresenta-se, outrossim, como uma espécie de reação circular com suas características de espontaneidade. Em resumo, o contágio vocal nada mais é do que uma excitação da voz da criança pela voz de outrem, sem imitação precisa dos sons escutados”( Piaget, p.24)

Assim também acontece no canto, a criança se aventura na melodia fazendo uso da imitação, articula as palavras para depois, mais adiante, fazer a correspondência mais precisa com a altura dos sons. Observa a movimentação visual facial durante o canto, passando a articular da mesma maneira. Primeiro uma articulação silenciosa, posteriormente o som aparece, é o canto, de forma ainda fragmentada. A palavra vem servir como acessório para que a criança se aventure nos contornos da melodia, não há um entendimento do seu significado. Esta falta atenção quanto ao significado das palavras, é um fato que ocorre não somente nos primeiros anos de um indivíduo, segue acontecendo para sempre. Quantas vezes observamos adultos cantando músicas com palavras trocadas, quantas vezes nós mesmos passamos a entender realmente uma letra quando a lemos no encarte de um disco e exclamamos: “Ah, essa letra é linda! Canto essa música a tanto tempo e nunca tinha reparado na letra”. Portanto, a palavra serve de suporte para um acesso à melodia.

Durante toda a fase infantil o educador deve cantar articulando bem as palavras, exagerando a dicção, para que a criança assimile a relação da expressão visual do rosto, especificamente dos lábios com o som emitido. As crianças estão atentos  a toda a movimentação facial e gestual ao seu redor. É importante que o educador cante olhando as crianças, fazendo-as olhar atentamente para seu movimento labial e facial, “a própria fala, em uma situação natural, é uma configuração visual, assim como acústica, porque os lábios se movem. A capacidade de imitação aumenta consideravelmente quando os lábios podem ser vistos. “Por volta de seis semanas, os bebês tendem a olhar mais estreitamente para rostos que falam. Além disso, quando o som real produzido está em conflito com os movimentos dos lábios observados, a informação visual predomina em relação à auditiva. Em outras palavras, nós ouvimos aquilo que vemos, não aquilo que é dito”. (Stern, p.44)  

A teoria de aquisição da linguagem a partir de um processo mimético original está presente na teoria de Walter Benjamin. Esta teoria diz que a linguagem se desenvolveu de uma mímica gestual primeva. O som obtido era o acompanhamento do gesto corporal, fazendo surgir o gesto sonoro. Este aos poucos foi tornando-se independente do corpo assumindo uma posição predominante. (Rouanet, apud Jobim e Souza) Observando este estágio inicial da linguagem a partir desta teoria, é possível imaginar o resultado sonoro obtido como um cantar elementar.

Portanto, podemos concluir que a imitação é uma fase que serve tanto ao desenvolvimento da fala como ao do canto. Há nesta fase, da imitação, um momento bastante interessante. Parece existir um ponto onde o processo de aprendizagem pela imitação estará servindo aos dois propósitos, a fala e ao canto. Ambas convivem num mesmo território durante pouco tempo. Talvez seja um momento onde as crianças queiram assimilar o canto através da fala e percebem uma “excitação”(Piaget) diferente em seus ouvidos e tomam o rumo da melodia. Na verdade para que serve esta analogia? Penso que possa vir a contribuir para uma maior conscientização da importância do canto no processo de desenvolvimento do indivíduo. Consequentemente, um maior cuidado no ensino das canções para as crianças.

A partir de dois anos a criança começa a articular os fonemas com a voz falada e cantada com maior destreza, porém ainda com algumas dificuldades. Neste instante, parece que o quebra-cabeça das palavras, antes com finalidades puramente sonoras, passam a tomar um sentido mais amplo, elas começam a criar um significado, é o exercício do pensamento e da simbolização. No que se refere a música, as palavras ajustar-se-ão de forma mais precisa à melodia e abrirão mão da sua capacidade de significação. Quando essas “peças” começam a se encaixar dão início a um envolvimento emocional com o outro, consequentemente com o mundo que as rodeiam. Começa aí, uma das funções mais belas do canto e da fala, a sua função socializadora e a sua “impressão cultural”, um selo personalizado de cada cultura.

O quebra-cabeça vai se montando, a melodia, com auxílio das palavras vai aos poucos ganhando espaço no cérebro das crianças, que por sua vez vão armazenando e processando mais e mais informações sonoras cheias de ritmo, característicos de sua cultura. Os educadores mais atentos poderão vê-las envolvidas com um “canto expontâneo”, inventando melodias, cantando histórias próprias, exercícios necessários e naturais, parecendo estarem aprimorando (afinando) seu canto, para depois, dividi-lo com a turma. Passam a perceber a voz grupo e a modificação do ambiente sonoro, a função social da canção passa a ser mais bem entendida. A melodia começa a surgir de forma mais clara, as alturas passam a se definir, da mesma forma que as palavras. De algumas notas imprecisas e esparsas passam a organizar uma estrutura melódica mais longa até conseguirem cantar uma música até o fim. “Isso ocorre porque a criança já adquiriu um senso da estrutura rítmica do canto; portanto seus esforços em canto aprendido guardam não somente as letra, mas uma semelhança também rítmica ao modelo aprendido de sua cultura”. (Gardner, p136.)

Depois de adquirido o domínio básico para viajar através da canção, a criança estará disponível à qualquer proposta melódica que o educador vier a sugerir. Canções que podem ser infantis, folclóricas, e também retiradas da nossa rica MPB. Sempre tomando os cuidados necessários para um bom resultado. Cuidados estes como: escolher a música certa para uma determinada faixa etária, não se apegar aos gostos pessoais (o canal da educação é o da diversidade) e o principal, repetir, repetir até elaborar.

Quanto à fala, parece tomar outros rumos, associa-se ao desenvolvimento do pensamento, da retórica e outros caminhos que dão entender ter se afastado do canto Mas mesmo seguindo um outro caminho (talvez paralelo), a fala estará sempre ligada ao canto em suas origens, quando tudo era apenas um balbucio onde ambas estruturas dividiam o mesmo espaço, até encontrarem suas especificidades desenvolvidas pela mesma técnica natural de aprendizagem, a imitação.

  • Sugestões de procedimentos básicos para facilitar e ampliar o trabalho do educador no ensino de uma canção

  1. O educador deve anotar todas as músicas que canta em turma. Uma anotação pessoal, ou num “blocão” exposto em sala de aula, preenchendo a cada nova canção aprendida pela turma.
  2. Pedir que cada criança cante uma música de cada vez. Diga que não vale repetir, se a turma não tiver um repertório ainda, permita algumas repetições, ou composições próprias.
  3. Invente um microfone, um pedaço de madeira, ou se possível um microfone de verdade. Passe-o de mão em mão pela rodinha, os mais tímidos encontrarão nele um apoio, e se sentirão mais à vontade para cantar.
  4. Escolher uma música coerente com a possibilidade cognitiva da turma
  5. Ensinar a letra da música fazendo uma leitura rítmica, como se letra da música fosse uma parlenda. Comece com uma frase. Peça que os alunos repitam. Em seguida utilize duas frases, e assim gradativamente, fazendo com que as crianças repitam, como na “brincadeira do eco”.
  6. Articular bem as palavras, quase que exageradamente, olhando nos olhos das crianças e pedindo que elas olhem para você, para sua boca. O importante é ver as boquinhas das crianças articulando, mesmo que não saia muita voz ainda.
  7. Utilizar um instrumento para acompanhamento. Se for não souber tocar violão, toque um tambor fazendo uma marcação simples.
  8. Cantar a música sem utilizar os  movimentos ou gestos que a música por ventura possam vir a sugerir. Primeiro valorizar o movimento da boca, da articulação facial, depois  o corporal,Pergunte: Quem aprendeu?! Alguns, mesmo sem ter aprendido levantarão o braço. Peça que cantem um de cada vez.. O som obtido foi o possível. Cante de novo com eles.
  9. Peça que só as meninas cantem, depois os meninos e por fim todos juntos.


Ellison, Alfred. Music with children. London: McGraw-Hill Book, 1959
Gardner, Howard. Arte, Mente e Cérebro. Porto Alegre: Artes Médicas, 1999
Jobim e Souza, Solange. Infância e Linguagem: Bakhtin, Vygotsky e Benjamin. Campinas SP: Paiprus, 1995
Jourdain, Robert. Música, cérebro e êxtase. Rio de Janeiro: Objetiva, 1998
Piaget, Jean. A formação do símbolo na criança. Rio de Janeiro: Zahar, 1971
Stern, Daniel. O mundo interpessoal do bebê. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992
Vigotsky L. S. Pensamento e Linguagem. São Paulo:  Martins Fontes, 1996
Claparéde, Ed. A Educação Funcional. São Paulo: Editora Nacional, 1954







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